O poeta romano Ovídio, que viveu no início da era cristã, escreveu sobre o escultor Pigmalião, que se apaixonou pela própria estátua e foi premiado pela deusa da beleza Vênus, que deu vida a ela. O sentimento do artista mudou a condição da estátua. A partir desse tema, muitos escreveram, até mesmo o crítico, polemista e dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, autor da peça Pigmalião, posteriormente adaptada para o musical My Fair Lady, história de uma florista que se transformou em lady porque alguém a viu como tal e assim deu vida à lady que já existia dentro dela. Eis aí de onde veio um termo muito importante para efeito de trabalho e carreira: o Efeito Pigmalião.

Também chamado Efeito Rosenthal, o Efeito Pigmalião foi assim nomeado por Robert Rosenthal e Lenore Jacobson, destacados psicólogos americanos, que realizaram um importante estudo sobre como as expectativas dos professores afetam o desempenho dos alunos. É simples: professores que têm uma visão positiva dos alunos tendem a estimular o lado bom desses e a obter melhores resultados; professores que vêm os alunos com olhos negativos adotam posturas que acabam por comprometer negativamente o desempenho desses. Esse efeito, chamado também de profecia auto-realizável, porque quem faz a profecia é na verdade quem a faz acontecer, afeta as relações em todos os campos da vida, conforme amplamente documentam os estudos posteriores de Rosenthal, um premiado cientista. Na gestão, a profecia auto-realizável foi apresentada em célebre estudo de Douglas McGregor, na década de 1960, que mostrou que a expectativa dos gerentes afeta o desempenho dos empregados - quando o gerente espera coisas positivas deles, essas tendem a vir; quando espera coisas negativas, elas provavelmente serão confirmadas.

O efeito na prática

Em termos práticos, poderíamos colocar as coisas assim: se Fulano vê Beltrano como "difícil", não-colaborador, como "inimigo", tende a agir como se o outro realmente fosse assim, levando-o a fechar-se para a colaboração, o que o torna então parecido com a imagem criada. Assim, em princípio, quem tem expectativas ruins sobre os outros, não acredita neles, não vê suas qualidades, costuma colher o pior dos outros; já quem os vê pelo lado positivo, que tem expectativas boas sobre eles, tende a obter o melhor de cada um.

Eis alguns exemplos:

·Um candidato a uma vaga em uma empresa que tem expectativas favoráveis sobre como o entrevistador reagirá à sua presença chega mais descontraído, espontâneo e confiante, afetando positivamente a percepção do outro - e aumentando sua probabilidade de ser o escolhido.

·Um gerente que tem uma visão positiva dos seus superiores os vê como pessoas sensatas e confiáveis, apresenta-se desarmado, autoconfiante e tranqüilo diante deles, angariando mais simpatia e ampliando o potencial de que seus projetos sejam bem recebidos.

·Um profissional técnico que acredita na capacidade de seu gerente de ouvir e considerar idéias e sugestões vindas do pessoal terá mais propensão a apresentar contribuições, tendendo a ser mais ouvido e considerado como colaborador.

·Um vendedor que acredita no potencial interesse do cliente já chega com um discurso mais positivo e autoconfiante, transmitindo maior segurança sobre o valor de sua oferta.

Ao longo da vida, quem acredita nos outros vai emitindo sutis sinais positivos - e vai então criando relações sólidas e com gente admirável. Já aquele que dia a dia olha para os outros com uma visão negativa vai emitindo mensagens de descrença e afastamento, fazendo com que os outros nunca possam mostrar o melhor de si. Com o passar do tempo, os sutis sinais farão uma grande diferença.

Conclusão

Como você se vê? Se se vê com olhos negativos, identificando fraquezas e más qualidades, já se sente autorizado a ser assim, o que limitará significativamente suas escolhas e sua autoconfiança. Nesse caso é melhor mudar a auto-imagem, até mesmo recorrendo a terapia, se necessário. E como você vê os outros? Se é de modo negativo, mude também s sua visão, e altere para melhor a resposta deles.

Recomendação final: leia a peça Pigmalião, de Bernard Shaw, publicada pela Editora LP&M, que tem em português a tradução de Millôr Fernandes. Cultura que traz ensinamentos práticos, além do prazer estético.