Várias empresas brasileiras de grande porte, como Votorantim e Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), estão fazendo escola na área de Recursos Humanos porque decidiram expandir seus negócios para além fronteiras e, para tanto, tiveram de criar mecanismos de formação e adaptação da mão-de-obra. É uma via de duas mãos porque alguns executivos são deslocados para trabalhar em países de culturas diversas. E, depois de algum tempo, as empresas têm de “repatriar” o seu pessoal, muitas vezes substituindo equipes por pessoal local, estrangeiro.

“O Brasil está liderando o processo de internacionalização”, segundo depoimento de Marco Dalpozzo, Diretor de Desenvolvimento Organizacional e Humano da Companhia Vale do Rio Doce, ao participar do Conarh-2005, em 11 de agosto, em São Paulo. O executivo disse que, nesse aspecto, “a cultura brasileira é vantajosa porque é complexa e de forte identidade e os estrangeiros têm simpatia pelo Brasil, país bem-visto tanto por comunidades desenvolvidas quanto pelas subdesenvolvidas. O executivo explicou que, atualmente, a Vale tem 53 profissionais de primeiro escalão,“expatriados”, espalhados por Europa, Estados Unidos, América Latina, Ásia, Oceania e África. A empresa, segundo Maria Eudóxia Gurgel, Gerente Geral de Gestão Internacional da Vale, está chegando a regiões do mundo com diferenças culturais muito fortes e, por isso, tem a preocupação de não emitir juízo de valor algum, sempre respeitando as culturas locais, por mais esdrúxulas que possam parecer aos olhos de quem sai do Brasil.

É interessante notar que não há um modelo de gestão de pessoal no exterior. Em cada país, em cada cultura, é necessário um programa específico e políticas de contratação, treinamento e remuneração adaptadas às nuances locais.

Segundo os representantes da Vale do Rio Doce, por exemplo, a remuneração segue o padrão de cada país, estabelecido a partir de uma lista de valores médios praticados por empresas locais, nacionais e estrangeiras. Há, porém, aspectos inusitados na política de RH que as empresas brasileiras levam ao exterior. Na África, por exemplo, a Vale teve de incluir testes de HIV nos exames de admissão, pois a presença da síndrome é muito freqüente entre os candidatos a vagas. Além disso, em países em que há poligamia, os benefícios têm de ser planejados segundo essa prática. Em princípio, seguem-se as normas brasileiras, mas atendem-se as leis locais. Quando um profissional tem quatro esposas oficiais, o plano de saúde é extensivo as quatro e aos filhos. “Têm de ser esposas oficiais”, explicou Maria Eudóxia.

Nos países desenvolvidos também há peculiaridades a serem respeitadas. Na Noruega, por exemplo, o executivo mais importante de qualquer empreendimento tem de ser preferencialmente norueguês, sênior. Fernando Carvalho Lima, Diretor de Desenvolvimento Humano e Organizacional da Votorantim, acrescentou a importância da volta de executivos que tenham cumprido um período de trabalho no exterior. A empresa oferece um trabalho de aconselhamento (coaching) para o expatriado se readaptar no País.

Como se nota, o fato de ser um país multiracial coloca o Brasil em destaque na lista dos países cuja mão-de-obra se adapta aos mais diversos mercados. Ressalta-se, ainda, que a criatividade brasileira também é fator competitivo dos mais fortes. E os exemplos citados dão boa indicação disso.