| A Educação a Distância (EaD) já é realidade no Brasil. Graças às facilidades que estabelece entre escola e aluno, eliminando barreiras e limites de horário e local, o campo transforma estruturalmente a educação, ainda que a voltada apenas ao topo da pirâmide. Este, talvez, seja o maior desafio, apontam os especialistas, o que, no entanto, não pode significar uma falta de sensibilidade em relação aos avanços, que são visíveis. Com a falta de tempo que assola profissionais do universo corporativo, existem apostas de que a EaD será a forma predominante de educação no futuro. Para aumentar a adesão, diversos meios de comunicação, isolados ou combinados, são empregados. A convergência de mídias tem sido um fator transformador da educação. Alguns exemplos são materiais impressos distribuídos pelo correio, transmissão de rádio ou TV, fitas de áudio, de vídeo ou DVDs, redes de computadores, sistemas de teleconferência ou videoconferência e telefone.
Até o fim da década passada, a educação a distância era vista com reservas. Era alvo de comentários preconceituosos, encarada como educação de segunda classe. Tal preconceito alimentava cursos técnicos de nível médio ou supletivos, com envio de pilhas e pilhas de apostilas ao aluno pelo correio, para serem assimiladas em silêncio, numa incerta solidão. Dúvidas eram resolvidas com ligações telefônicas rápidas. As provas feitas em casa e enviadas aos professores também pelo correio.
Em 2001, o Ministério da Educação regulamentou o ensino de pós-graduação a distância, e universidades de primeira linha incorporaram essa modalidade em sua grade de cursos. Entre as 16 faculdades de Administração que receberam cinco estrelas no Guia do Estudante – Melhores Universidades 2006, da Editora Abril, três oferecem cursos de especialização a distância. A metodologia avançou muito e contribuiu para o crescimento do interesse desses cursos. Hoje, a maioria das faculdades utiliza os recursos da Internet para ministrar aulas e combina diversas ferramentas de comunicação para tornar o ensino mais dinâmico, envolvente e menos solitário. Como em um curso convencional, os alunos são divididos em turmas, com a diferença de que as salas de aula são de bate-papo online. Os alunos podem discutir uns com os outros, fazer perguntas aos professores nas salas de bate-papo. Em síntese: interagir.
Crescimento – No Brasil, o sistema está em franca expansão. Nos últimos quatro anos, a modalidade cresceu 60% ao ano. Conforme dados do Ministério da Educação, 139 instituições públicas e privadas de ensino superior e 200 escolas de ensino fundamental e médio oferecem o EaD aos alunos. Esse mercado promissor anima investidores e contabiliza previsão de investimentos de R$ 2,7 bilhões até 2010. O mundo corporativo é um dos maiores responsáveis pelo crescimento do EaD no mundo. Oe-learning é a vertente mais promissora do EAD no mundo, e o ambiente corporativo é hoje o seu maior consumidor.Em 2004, as cifras destinadas ao e-learning chegaram a R$ 235 milhões.A oferta cresceu 40% no segmento empresarial em 2005, segundo estima o Ministério da Educação. No Brasil, ao menos 480 empresas já têm algum tipo de treinamento eletrônico, segundo dados do Prêmio E-Learning Brasil, da MicroPower. Entre as 64 participantes do prêmio, o retorno do investimento em treinamento on-line atingiu R$ 636 milhões nos últimos cinco anos. Já o gasto inicial para implantá-lo caiu 70%: de R$ 500 mil em 2000 para menos de R$ 40 mil neste ano. O número de instituições que ministram os cursos autorizados pelo sistema de ensino cresceu 30,7%, passando de 166 em 2004 para 217 em 2005. De acordo com a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), 1.278.022 brasileiros estudaram a distância em 2005 nos cursos credenciados pelo MEC ou em iniciativas públicas e privadas. De acordo com a secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação, esses diplomas têm a mesma validade dos cursos presenciais.
Muitas instituições brasileiras de ensino já contam com programas de EaD e devido ao avanço da tecnologia, os usuários estão mais familiarizados com a utilização dos programas.
Empresas também estão incorporando o EaD ou e-learning como ferramenta de treinamento no ambiente de trabalho. Diversas companhias, como o Grupo Martins, oferecem cursos voltados ao universo do varejo para sua equipe de funcionários. O funcionário acessa o site da empresa com sua senha e pode escolher entre as diversas opções de cursos na Universidade Martins do Varejo, voltados a melhorar sua performance em vendas e atendimento ao cliente. Seja na segunda-feira pela manhã ou no domingo à tarde, o funcionário tem maleabilidade para gerenciar o curso. Para ajudá-lo, ele conta com uma biblioteca online, acesso aos professores para tirar dúvidas e uma avaliação promovida na metade do curso online, para medir seu desempenho e registrar opiniões dos usuários, a fim de melhorar o serviço.
Exemplos como esse, da Universidade Martins do Varejo, construída em ambiente virtual também para facilitar o acesso dos funcionários às práticas incorporadas pelo Grupo Martins, são cada vez mais freqüentes no mundo do EaD. A demanda de alunos-trabalhadores é o mais novo e promissor mercado. Para atender a essa demanda, as instituições de ensino estão firmando convênios entre universidades corporativas e parcerias interinstitucionais. O objetivo é desenvolver formas de ensinar e aprender utilizando os recursos do Ensino a Distância.
Vantagens e desvantagens – A Internet é a grande incentivadora do EaD. Alunos dessa modalidade apontam a flexibilidade como uma grande vantagem. Graças a ela, o conteúdo das aulas pode ser acessado em qualquer horário. Pode-se estudar nas melhores universidades, mesmo morando em regiões distantes. Gasta-se menos com mensalidade e nada com transporte. Esses cursos costumam ser mais baratos do que os convencionais, chegando a sair por até pela metade do preço cobrado no sistema convencional. A mesma lógica aplica-se aos cursos online em universidades européias e americanas. Um mestrado a distância na Universidade de Oxford, na Inglaterra, por exemplo, não sai por menos de R$ 50 mil. Porém, os cursos no exterior são pouco procurados por brasileiros. A razão é a legislação. O Ministério da Educação dificulta o reconhecimento de diplomas obtidos dessa forma no exterior. Porém, as desvantagens estão presentes e a principal delas é a solidão na busca pelo conhecimento. Muita gente sente falta do ambiente universitário. Os contatos com os colegas ficam mais restritos e é mais difícil fazer amizades. É preciso ter disciplina também, já que não há o estímulo nem a supervisão constante do professor.
Perfil - Edward Yang, 33 anos, é graduado em Administração de Empresas pela FGV-EAESP, com Master em Criatividade Aplicada pela Universidade de Santiago de Compostela e mestrando em Administração pela PUC-SP. Atua na FGV desde 1998 e atualmente ocupa o cargo de Coordenador do Programa de Educação a Distância da FGV-EAESP. Ele conversou com a Manager sobre a dimensão desse mercado.
Manager – Quais as vantagens que justificam o crescimento do EaD?
Edward Yang – A modalidade pode, efetivamente, ampliar os horizontes, não só pela flexibilidade, mas acima de tudo ao proporcionar novas competências e novas formas de aprendizado.
Manager – Quais são as oportunidades que se apresentam hoje na EaD?
Yang – Os cursos podem ser seqüenciais ou semipresenciais, abertos a diversos públicos e estudantes ou corporativos, ou seja, exclusivo para funcionários de uma empresa. A EaD pode ser aproveitada também como serviço complementar e ministrar treinamento, eventos, congressos e consultoria. É possível customizá-la.
Manager – Há diversos cursos de graduação a distância, mas raros são os que diplomaram a primeira turma. Tal situação está comprometendo a credibilidade desses cursos?
Yang – Sim. Por enquanto, os cursos existentes são apenas de pós-graduação lato sensu – valem como especialização. Os cursos de graduação podem e devem aproveitar a flexibilidade que o EaD dá.
Manager – Os cursos de pós-graduação são mais procurados para utilizar essa modalidade?
Yang – É possível aproveitar a flexibilidade do EaD para promover um lato sensu a distância, semipresencial, um aperfeiçoamento, curso de extensão, corporativo, sendo 100% a distância ou semipresencial. Já no mestrado, o ideal é que seja aplicado na versão semipresencial.
Manager – Qual é o maior desafio da EaD no Brasil?
Yang – Convencer que Educação a Distância não depende de tecnologias avançadas que limitam o aprendizado por concentrar muitas dificuldades operacionais. Hoje a tecnologia está se tornando uma commodity, portanto fica mais fácil aplicar a EaD na gestão do aprendizado propriamente dito. O problema está nas pessoas e nos métodos e não nos equipamentos e softwares utilizados no EaD.
Manager – Qual é a importância do papel do professor na EaD?
Yang – É um novo mercado para esse profissional. Como não existe a formalidade do aluno ir para a faculdade, o professor precisa ter consciência de que vai ensinar, mas também vai aprender com as novas tecnologias que ocupam o papel da interação na sala de aula. Ele precisa checar as metodologias que serão empregadas no curso a distância, de forma a reconhecer as ferramentas que o ajudarão a ensinar e como poderá trabalhar com tais ferramentas.
Manager – O ambiente corporativo é um grande incentivador dessa modalidade de ensino?
Yang – Sim, a demanda de alunos-trabalhadores é o novo mercado para o EaD. Tal necessidade motiva a criação de universidades corporativas e parcerias interinstitucionais, abrindo a possibilidade de firmar convênios.
Manager – Na EaD, as rotinas do estudante envolvendo provas e seminários são substituídas por quais ferramentas?
Yang – A substituição ocorre dentro do espaço disponível. No caso do ambiente virtual, onde são desenvolvidas as aulas, o estudante deve manter uma rotina de auto-estudo, intercalando com fóruns de discussão, trabalho individual e/ou em grupo, chat e videoconferências.
Manager – Quais são as formas de interação e atividades nessa modalidade de ensino?
Yang – A interação entre aluno e professor ocorre por videoconferência, seminários presenciais, fórum de discussões e chats. As atividades de aprendizagem envolvem trabalhos em grupo e individuais, discussão em fóruns, pesquisas dirigidas e chats. Para avaliar o nível de aprendizagem, é utilizada plataforma de gestão de cursos, webcast e chat.
Manager – Esse nível de aprendizagem costuma sofrer muitas oscilações?
Yang – O aluno precisa acostumar-se à metodologia empregada. Na Fundação Getúlio Vargas, adotamos a metodologia semipresencial. Tal modalidade colabora para criar mais empatia entre aluno e instituição de ensino. Mas é preciso que o aluno tenha disciplina e adapte-se à rotina de aprender sozinho.
Manager – Um dos grandes desafios das empresas que adotam o e-learning é reduzir a desistência dos alunos-trabalhadores.
Yang – Sim, pesquisas mostram que no e-learning, a taxa de evasão costuma ser de 70% a 75%. Muitas vezes, o aluno sente-se abandonado, perde a confiança em si mesmo e nas informações que está aprendendo. Para resolver tais problemas, é recomendável adotar a metodologia semi-presencial.
Manager – Quais são as recomendações que o senhor dá para empresas que desejam implementar um e-learning para seus funcionários?
Yang – Os cuidados devem começar na elaboração do ambiente que sediará o aprendizado. A página deve receber um tratamento institucional. O mesmo cuidado deve ser aplicado na linguagem pedagógica, apropriada à aprendizagem. Essa linguagem deve contar com o suporte de recursos midiáticos. Ao contrário do que muita gente pensa, tais cuidados não demandam custos elevados. Planejar a estratégia de ensino também é importante: o curso será semipresencial, qual será a carga horária, o público-alvo, terá abrangência nacional, duração, tamanho das turmas. Escolher uma plataforma de gestão é o próximo passo. |  |
| | | O Ensino a Distância era visto, até o fim da década passada, como educação de segunda classe no Brasil. Cursos técnicos de nível médio ou supletivos eram opções mais freqüentes. O EaD cresceu 60% ao ano nos últimos quatro anos e apareceu, alimentado por boas universidades, tecnologia, credibilidade e necessidades do mundo corporativo que exige que a educação continuada seja regra para quem quiser ter empregabilidade e competitividade. | |
|
|