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[Manager Empregos] As empresas precisam aprender a falar a verdade
As empresas precisam aprender a falar a verdade

Wagner Belmonte e Raquel Prado

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As mentiras corporativas precisam ser eliminadas do mundo e do dia-a-dia das organizações, dos feedbacks, das palestras motivacionais, da gestão... Se um funcionário precisa ser demitido, nada de alegar que a demissão dele busca conter despesas, equilibrar os custos. “É preciso desenvolver a cultura de falar a verdade o tempo todo”, diz Roberto Shinyashiki.

Essa posição, que pode ser interpretada como um verdadeiro manifesto contra a hipocrisia nas relações de trabalho, deveria pautar, inclusive, a agenda do Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas (Conarh), que será realizado em São Paulo na próxima semana (22 a 25 de agosto). Ele acredita que o evento busque as melhores idéias a serem aplicadas na gestão de pessoas, mas deve valorizar a simplicidade nas relações de trabalho, com a sinceridade pautando os diálogos, as ações e, conseqüentemente, a gestão em si.

Shinyashiki defende também que não vale afirmar com orgulho que a empresa pratica a avaliação 360 graus se os gerentes e demais profissionais não estiverem preparados para escutar, de verdade, o que significa esse feedback como um processo coletivo de amadurecimento e contribuição. Porém, antes de implementar a sinceridade a toda prova nas relações de trabalho, os profissionais de Recursos Humanos precisam derrubar um verdadeiro “muro” que ganhou um espaço assustador no mundo corporativo: a arrogância, que bloqueia os relacionamentos e emperra o fluxo. “Dizem que o brasileiro tem a auto-estima muito baixa. Não é nada disso. É justamente o contrário”, argumenta. “Que atire a primeira pedra quem nunca viu uma avaliação onde o diretor recebe críticas do subordinado em silêncio, procura demonstrar interesse e, meses depois, o tal subordinado é demitido”, exemplifica. “O que está acontecendo é um discurso totalmente diferente da prática”, opina Shinyashiki.

Para consertar tudo isso, o autor de Tudo ou Nada recomenda o estímulo a falar a verdade como uma revolução que precisa ser feita na gestão de pessoas. “Vai ter muita briga, de verdade, e essas brigas vão obrigar as empresas a ter uma nova atitude, de respeito à verdade”, garante.

Perfil – Nascido em Santos (SP), Roberto Shinyashiki é médico psiquiatra, com pós-graduação em Gestão de Negócios (USP). É visto como um profundo conhecedor da alma humana. Doutorando em Administração pela Faculdade Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (FIA-USP), sua formação inclui cursos de especialização nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Também participou de congressos de desenvolvimento e treinamento renomados, com palestras até mesmo no congresso da American Society for Training & Development, nos Estados Unidos.

A dedicação ao desenvolvimento de projetos sociais rendeu-lhe o prêmio “Hadge Capers”, da Associação Internacional de Análise Transacional, como melhor projeto de solidariedade mundial. A atuação no meio empresarial e profissional é resultado de sua convicção de que sempre é possível ser um vencedor. No mercado editorial, Shinyashiki estreou em 1985, com um livro hoje bastante conhecido - A Carícia Essencial. O segundo livro, Amar pode dar certo, foi publicado três anos depois e ganhou nova edição em 2002. Os demais livros (Pais e Filhos - Companheiros de Viagem, Mistérios do Coração, Sem Medo de Vencer, A Revolução dos Campeões, O Sucesso é Ser Feliz, Os Donos do Futuro, Você – A Alma do Negócio, O Poder da Solução, Heróis de Verdade) também são sucessos editoriais, vendendo mais de 6,5 milhões de exemplares no Brasil, América Latina, Europa e Japão. Recentemente, o autor lançou Tudo ou Nada, que aborda a falta de coragem das pessoas na tomada de uma decisão.

Conferencista internacionalmente reconhecido, Shinyashiki tem publicado artigos em importantes revistas de Administração e Recursos Humanos. Hoje é um dos maiores especialistas em gente nos seus diversos papéis e sua bibliografia mostra os seus conhecimentos, renovados com o auxílio de viagens aos Estados Unidos, Europa e Ásia. Na sede da Editora Gente, ele deu a seguinte entrevista à Manager.



Manager – O senhor declarou em uma entrevista que o problema do Brasil é o burro motivado...

Roberto Shinyashiki – Essa entrevista foi uma das melhores da minha vida. Geralmente, quando se dá entrevista, fala-se três horas que se transformam em três páginas. O jornalista pegou bem, entendeu o que eu quis dizer, foi legal. A declaração está sempre circulando na Internet.

Manager – O senhor mantém essa afirmativa?

Shinyashiki – Sim, vou até falar sobre um assunto complicado. As convenções das empresas brasileiras trabalham motivação, marketing pessoal e network bastante, mas pouco na questão de competência. Precisamos ter um País mais competente. Vejo que os sociólogos falam que a auto-estima do brasileiro é baixa, porém, a auto-estima é altíssima. Penso justamente o contrário. Mas o que é auto-estima? É o conceito que o indivíduo tem de si, independente dos seus resultados. Resultados não são suficientes para abordar a auto-estima em alta. O professor deu a aula, o aluno não aprendeu. Se ele tem a auto-estima alta, continua se sentindo o máximo. O problema é dos alunos, o problema é da escola, o problema é de outra coisa; nunca dele mesmo. Esse assunto tem a ver com a minha tese de doutorado, que estou cursando atualmente, onde critico o conceito de auto-estima. Precisamos desenvolver conceitos de performance mais relacionados a resultados. Um outro exemplo: um cirurgião plástico faz uma lipoaspiração e a paciente morre. Se ele tem a auto-estima alta, vai continuar operando, não vai parar para se perguntar: “Eu sei fazer o que estou fazendo?” Portanto, é muito comum ter um gerente de marketing que nunca leu Kotler [Philip Kotler].

Manager – Um psicanalista pode não ter lido Freud [Sigmund Freud] ?

Shinyashiki – Sim. Há poucas pessoas que verdadeiramente estudam. Uma parte dessas pessoas chuta.

Manager – As empresas, no entanto, consideram a motivação um processo intrínseco, ou seja, de “responsabilidade interior ou emocional” de cada um...

Shinyashiki – Exatamente.

Manager – O senhor segue essa linha?

Shinyashiki – As duas linhas são importantes. Nas teorias de desenvolvimento organizacional há fatores “higiênicos”, então você consegue desmotivar alguém se a empresa é injusta, se alguém está gritando, por exemplo. Porém, não consegue facilmente motivar. Você precisa ter pessoas que queiram fazer o que estão contratadas para fazer. É necessária uma revolução na maneira de contratar. Por exemplo, recursos humanos contratam muito em cima de auto-estima. O que é a auto-estima? Sujeito conversador, que fala bem de si, que é autoconfiante. E a gente precisava desenvolver sistemas de contratação de pessoas competentes.

Manager – Como são e como deveriam ser esses sistemas?

Shinyashiki – No sistema de promoções, é muito comum a pessoa competente ficar lá na sala dela trabalhando e o outro, que faz o jogo político, é promovido. Precisamos trabalhar muito em cima de resultados, precisamos saber de verdade quem faz.

Manager – Essa não é uma visão muito pragmática de resultados positivos ou negativos?

Shinyashiki – As empresas não estão trabalhando em cima dos resultados de verdade, estão trabalhando em cima do discurso. Vou a convenções de vendas e pergunto se o pessoal da equipe de vendas realmente conhece o seu produto e o dos concorrentes, além das necessidades dos clientes. Mas conhece por ter estudado de verdade? Ou ele tem um gerente que fala: “Vamos lá, vamos que vamos, somos os melhores.”? Nós somos os melhores baseados em quê? Como foi feita essa afirmação? Vendas é um outro problema. As faculdades de Administração no Brasil não têm cursos e disciplinas na área de vendas.

Manager – Não há direcionamento para isso?

Shinyashiki – Não tem disciplina de vendas. Não vou citar nomes, mas se você vai à faculdade A, B, C e D e pergunta quem dá disciplina de vendas, ouve que não existe essa matéria. Então a sua empresa não vende? Há distorções e a gente precisa sair desse discurso vazio e começar a dizer a verdade. Valorizamos os resultados, porém se valoriza quem entrega os resultados ou quem faz política, quem faz jogo de poder? 30% do tempo dos líderes e dos gerentes é usado para demitir funcionários, 30% no mínimo. O Adriano Lima, vice-presidente de Recursos Humanos da Mastercard, coordenador de vários grupos de gestores de RH, fala que 50% do tempo dos líderes é gasto “administrando o jogo de poder”. É um desperdício.

Manager – O senhor citou as faculdades. Como o senhor vê, nessa linha do discurso da necessidade técnica, da elevada auto-estima e do “ninguém segura este País”, essa abertura desenfreada do ensino superior e qual o efeito no dia-a-dia das organizações?

Shinyashiki – Qualquer escola é melhor do que não estar na escola, precisamos de escolas, mas precisamos também melhorar o nível do ensino, especialmente em nível ético. Sou médico, acredito que o nível de ensino em Medicina precisa melhorar, assim como o nível dos advogados. Menos de 20% estudantes de Direito passaram no mais recente exame da OAB. Boas faculdades precisam melhorar o seu nível de ensino. É importante também facilitar o acesso de todos ao ensino. Conversava com um professor da Faculdade Radial (SP) e ele posicionou a faculdade dele de maneira brilhante, na minha opinião. Ele me disse o seguinte: “Enquanto a Fundação Getúlio Vargas (FGV) forma os presidentes das empresas, a Radial forma os gerentes, portanto, minha faculdade é mais pragmática em seus fundamentos”. Isso foi brilhante. Todo mundo quer ser presidente e ninguém sabe ser gerente. Porém, precisamos de gerentes. O ensino de Administração no Brasil é catastrófico.

Manager – E de Recursos Humanos? Qual é a avaliação que o senhor faz?

Shinyashiki – Os Recursos Humanos no Brasil têm algumas poucas ilhas de excelência. Dei uma palestra recentemente nas Casas Pernambucanas. Antes da minha fala, o primeiro homem de Recursos Humanos, possivelmente o diretor da área, deu uma palestra de gestão de pessoas focada, dirigida, um negócio brilhante. Temos pessoas de Recursos Humanos com visão de negócio, gente que sabe que a empresa tem que dar lucro, tem que ter produtividade. A área de Recursos Humanos tem que aumentar a produtividade, o trabalhador tem que ter mais produtividade. Porém, a maioria dos profissionais de Recursos Humanos é desvalorizada pela própria empresa, porque são pessoas que não tem visão de negócios.

Manager – Eles criaram e difundem muito o conceito de que o profissional de Recursos Humanos tem uma visão holística integrada ao business. Qual é a sua opinião?

Shinyashiki – Eu vejo que o discurso do pessoal, o discurso da empresa brasileira é mais ou menos assim: “Mas a gente conversou sobre qualidade total nos anos 90, na década passada inteira”... E eu pergunto: quantas empresas têm realmente um trabalho de qualidade total?

Manager – Dizem que o budget de treinamento é sagrado, não é alterado nos momentos de crise, treinamento é e deve ser prioridade, investimento. Na prática, sabemos que quando a empresa está em dificuldade, a primeira coisa é cortar... Muita gente corta e diz que não corta o orçamento...

Shinyashiki – Eu acho que a gente precisa questionar o discurso.

Manager –Como assim? O Conarh é uma oportunidade para essa observação?

Shinyashiki – Acredito que o Conarh esteja procurando melhores idéias dos profissionais de gestão de pessoas, porém o que tenho visto é que as gestões de pessoas têm sido muito hipócritas. Portanto, não precisamos exatamente de idéias, precisamos de gente que fale a verdade. Se eu não consigo que meus gerentes escutem de verdade o feedback 360 graus não adianta ter o feedback. Porém, as pessoas caem na arrogância, chamam o funcionário, o gerente, falam para o diretor, que faz uma cara de quem acha legal. Meses depois, esse sujeito, que fez a crítica, está fora da empresa.

Manager – Isso quando não há uma coação política, no sentido do “fala bem de mim”...

Shinyashiki – Fale bem de mim direto, com frequência... O que está acontecendo é que o discurso de gestores de pessoas está muito diferente da prática.

Manager – E qual é a solução?

Shinyashiki – A solução é estimular a falar a verdade. Se você me perguntar qual é a revolução que precisa ter na gestão de pessoas, digo que precisamos falar e aceitar a verdade. Às vezes, ocorre uma situação em que se fala que o faturamento aumentará em 30% e o lucro também. Qual é o lucro do setor? Mas não se sabe qual é a margem de lucro do setor, portanto, como chegar a esse número de 30% de lucratividade se o setor tem 5%? Isso é para criar tensão, estresse. Para quê? Precisamos começar a fazer um discurso sobre a verdade. Vai ter muita briga, de verdade, e essas brigas vão obrigar as empresas a ter uma nova atitude, de respeito à verdade.

Manager – Há algum tempo, o senhor fez uma crítica às empresas que chamam técnicos de futebol para falar de motivação. O resultado disso é um trabalho bastante questionado...

Shinyashiki – Eu diria que é um resultado fraco, que questiono muito.

Manager – O ex-técnico da Seleção Brasileira Carlos Alberto Parreira escreveu o livro “Como formar equipes vencedoras”. Custaria algo próximo de R$ 20,00, mas depois do fracasso na Copa da Alemanha, o título é vendido a R$ 13,00. O livro está encalhado porque, de modo geral, o brasileiro entende que tudo que a Seleção Brasileira de 2006 não foi é vencedora...

Shinyashiki – Temos que discernir o que é bom e o que não é bom. Posso chamar um empresário para dar uma palestra motivacional para um time de futebol. No dia seguinte, além da motivação, esses atletas têm que ter preparo físico, técnica, sistema tático, estratégia, algum conhecimento do adversário, dos seus pontos fortes e dos pontos fracos. Se eles não entenderem disso, não vai dar certo. Na empresa é a mesma coisa: tem que se ter fundamento, conceito. Foi feito um estudo sobre as empresas que quebraram e chegou-se à conclusão que 90% das empresas falidas não respeitaram os fundamentos. O palestrante é valorizado se fala de inovação. Ele não é valorizado se pergunta como está o fluxo de caixa da empresa. Vejo muito oba-oba nas palestras e há pouco trabalho consistente.

Manager – Combate-se o efeito e não a causa?

Shinyanshiki – Eu posso chamar um técnico de futebol para fazer a palestra na minha empresa, mas alguém viu as finanças? Alguém viu a estratégia? O grupo sabe a estratégia? O grupo fez um estudo de ameaças e oportunidades? O grupo sabe quais são os movimentos da concorrência? Estudaram os clientes? Estudaram os nossos pontos fracos da cadeia de suprimentos? Não se fala disso nas convenções.

Manager – O antropólogo Roberto Damatta diz que o brasileiro se projeta muito no futebol, no carnaval, no oba-oba, naquilo que se reverte em algo favorável à auto-estima dele. As empresas valorizam o supérfluo em detrimento do essencial?

Shinyashiki – Concordo totalmente. Vivemos em um mundo de lantejoulas. Estou finalizando meu doutorado, mês que vem vou defender minha tese. Isso significa cinco anos com todos os domingos dedicados a estudar, dormindo três horas para poder dar conta do volume de trabalho. Duvido que você conheça mais do que os dedos da mão de gente que tenha se dedicado a empresas e que fala que vai fazer um doutorado porque acha que tem responsabilidade sobre o que faz ou fala nas empresas. Portanto, fica um discurso vazio, que não leva a nada.

Manager – E de importação de tendências?

Shinyashiki – Uma coisa é você importar tudo. Outra é você importar a lâmpada, estamos importando a lâmpada. Então o que você tem? Tudo bem, o Tom Peters pode ter uma palestra aparentemente show e tal, mas ele foi consultor de empresas pelo menos por 20 anos. Era um superconsultor, visitou centenas de empresas, estudou profundamente centenas de empresas. Agora você pega uma pessoa daqui, que nunca viu uma empresa na vida... Isso é complicado.

Manager – O senhor declarou há algum um tempo que demite as pessoas quando percebe não que as pessoas erram, mas que as pessoas cultuam o erro.

Shinyashiki – Há dois tipos de profissionais: aquele que não sabe e quer aprender e, com ele, temos de ser generosos. Tem um profissional que não sabe, acha que sabe e os resultados estão caindo, então você não tem opção, tem que dispensá-lo. Por quê? Porque ele acha que sabe. Vou dar um exemplo de cirurgia, da área de Medicina. Você é um cirurgião, um cirurgião abdominal, você opera com um anestesista, e o anestesista é padrinho do seu filho, você é padrinho do filho dele... E ele não evoluiu nas técnicas de anestesia. A pressão abdominal aumenta, seu paciente sofre e coloca-se em risco a sua cirurgia. Aí você fala que seria legal trocar esse anestesia, usar um outro. E ouve algo como “Não, não vem me ensinar porque eu sei o que estou fazendo”. Você explica três vezes, tem que demitir. Por quê? Porque tem uma pessoa mais importante do que vocês dois, que é o paciente, então quando você tem uma pessoa que acha que já sabe e você tem certeza que ela não sabe e ela acha que o trabalho dela está bom e você está vendo que não está, você não tem opção.

Manager – Qual deveria ser a agenda dos profissionais do setor nesse sentido? É muito cômodo por parte da empresa afirmar que está fazendo todo o trabalho para motivar funcionários e a motivação agora decorre da equipe ou dele próprio. Por outro lado, é muito cômodo para o funcionário falar que o ambiente não leva a isso. Recentemente, o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), afirmou que essa será a eleição mais corrupta da história do Brasil. O presidente Lula respondeu que está na hora de ter responsabilidade pública sobre o discurso, quer dizer, aí vira uma discussão em torno do ciclo – o PT faz a crítica que o PSDB fazia quando era governo e o PSDB faz a crítica que o PT fazia quando era oposição. Shinyashiki – Sabe o que a sociedade não aceita? Não aceita que o problema seja trazido para o nosso quintal. Enquanto a corrupção ficava longe e não chegava perto da minha universidade, se eu sou um professor de universidade, eu tendo a ficar mais calmo. O PCC começa a matar policial na Avenida Paulista. Isso não pode; policial tem que ser morto na favela, longe dos meus olhos, longe da minha família, longe dos meus filhos.

Manager – É uma pequena corrupção, uma pequena transgressão?

Shinyashiki – Nossa sociedade não quer que os podres sejam trazidos para discussão, a solução de verdade passa por uma análise de competência das polícias, mas passa por uma série de outras análises que a gente não está muito disposto a fazer. Eu acho que precisa ser discutido e muito. Eu mandei um e-mail para palestrantes por esses dias dizendo: “Gente, estamos falando para muita gente, precisamos nos posicionar com relação a essa corrupção”. E eu já tinha conversado com alguns parceiros que falaram: “Roberto, isso vai atrapalhar. Não ganhamos dinheiro para ficar falando que o País está corrupto, que precisamos fazer uma limpeza ética nesse País, você vai perder palestra”. O que acontece? Está todo mundo defendendo o seu e a gente fica num país corrupto, e a gente fica num país em que os problemas não se resolvem. Eu acho importante falarmos sobre o assunto.

Manager – É um ciclo de corrupção que se retroalimenta?

Shinyashiki – É uma negação. O problema do brasileiro é ter uma personalidade por meio da qual ele tende a ter período de agitação e um período de depressão. Eu acho que isso tem a ver, mas a doença do brasileiro é negação. Sou médico, fiz Cirurgia um tempo, fiz Psiquiatria, Psicoterapia, depois fui para o mundo das empresas. Nunca atendi alguém com depressão política no Brasil. Se você descobre alguém envolvido com alguma coisa de corrupção, nunca o cara fica chateado, revoltado.

Manager – No Japão, a sensação de culpa em casos assim é tão drástica que as pessoas se desculpam publicamente. Em casos mais extremos, houve casos até de suicídio...

Shinyashiki – Vou pegar algo mais perto. No Chile, a pessoa falava: “Que sentido tem viver num país desse?” E ele trazia isso como uma crise existencial. Então, em tese, é mais fácil arrumar o Chile do que arrumar o Brasil, porque o povo não traz isso como uma questão existencial. Nós temos que trazer esses assuntos... A felicidade no Brasil é sinônimo de alegria 24 horas por dia, ninguém tem uma noção de felicidade como um fluxo. Então, está dando tudo certo, meu livro está na lista dos mais vendidos, vamos comemorar. Se está dando tudo errado, meu livro não está vendendo, se aprende. Isso é aprender, transformar, melhorar. Nossa tendência, muito mais que a ciclotimia, é a mania de querer sempre alegria 24 horas por dia e precisamos ter a dimensão de que arrumar problemas, resolver dificuldades são ações que fazem parte das nossas vidas. A vida não é fácil. Todo mundo quer transformar a vida em uma coisa fácil e acaba fazendo da vida uma besteira.

Manager – Por que os gestores devem ler o seu livro?

Shinyashiki – O livro anterior, Heróis de verdade, recomenda parar com o discurso vazio, essas metas ilusórias. O livro mais recente enfoca uma atitude que a gente precisa ter na vida e que também eu vejo que tem muito a ver com nós, brasileiros. Então, por exemplo, o estagiário, o garoto que quer o estágio vai lá fazer a entrevista, ele tem que entender que ele está nessa entrevista numa situação de tudo ou nada. Por exemplo, quando terminar essa nossa entrevista, vou entrevistar pessoas que preciso contratar. Quando eu sair, vou encontrar gente falando pelo celular, vou pegar gente lendo revista, ou seja, o sujeito já passou por três ou quatro entrevistas, seleções, dinâmicas... No meio disso, eu torço para ter um sujeito que está aqui concentrado e pensando: “Eu vou ser entrevistado, quero levar a conversa para esse lugar, quero mostrar isso, quero ser contratado”. O garoto, que pode estar concorrendo à mesma vaga, está com a namorada: “Pô, e à noite? Nós vamos sair? Não vamos sair?”, quer dizer, esse estado de espírito de “nós vamos sair, não vamos sair”, ele vai passar aqui. Ele é uma pessoa mais ou menos, então o sujeito que vai para uma entrevista, ele tem que ir para o tudo ou nada. O sujeito que vai fazer uma venda, ele tem que sair para o tudo ou nada. O sujeito que vai montar um negócio próprio, um tudo ou nada total, ou seja, tudo ou nada em cada detalhe tem que ser cuidado e que vai definir a vida dele. São decisões na vida da gente que são decisões importantes. Vocês lá na Manager devem viver isso o dia inteiro, porque o sujeito quer um emprego, ele tem até talento, mas ele, muitas vezes, vai para o processo de seleção mais ou menos, não vai dar. Recomendo esse livro no sentido de que você pode sentir que precisa ter uma atitude, às vezes, radical para conseguir as coisas que você quer.

Manager – O senhor colaborou com a equipe olímpica de 2000. Na ocasião, uma das coisas que o senhor tentou desenvolver foi um trabalho para que as pessoas estivessem mais cientes das suas responsabilidades. Um deles incluía andar sobre brasas. Aliás, esse foi um momento em que o Brasil não trouxe sequer uma medalha de ouro. Qual o impacto desse resultado sobre o seu trabalho?

Shinyashiki – Para a minha imagem, foi catastrófico não trazer uma medalha. Do ponto de vista do trabalho, foi uma pena, porque não fomos reconhecidos. Um exemplo é que acompanhei a preparação da dupla de atletas que ganhou da Sandra e da Shelda, na final do vôlei de praia. Elas apareciam na televisão australiana andando sobre brasas, assistindo aos vídeos da nossa dupla, ou seja, os outros times andaram sobre brasas e acharam isso natural, normal, pois é uma técnica utilizada em esportes. Atualmente, todo mundo anda sobre brasas nos seminários de empresas. Conseguimos resultados muito bons. Por exemplo, o 4 x 100m ganhou uma medalha de bronze, maravilhosa. O técnico falou para a revista Exame: “Se o Roberto não tivesse aqui, não teríamos essa medalha”.

Manager – O senhor esteve em Sydney, na Austrália?

Shinyashiki – Sim. Estive na Vila Olímpica, só que as pessoas podiam me procurar ou não, era opção delas. Os fortes não me procuraram e eu não tive chance de fazer nada.

Manager – Passado todo esse tempo, como o senhor vê as críticas recentes feitas ao Parreira, no sentido da falta de liderança e a exaltação do estilo Felipão?

Shinyashiki –Eu já estive em muitos vestiários na minha vida, infelizmente existem coisas que acontecem nos vestiários e nas concentrações sobre as quais não se fala fora daquele ambiente, então é complicado você analisar. Uma vez tinha um atleta que todo mundo esperava que ele tivesse uma grande performance e ele estava tendo uma péssima performance. No final da competição do campeonato mundial ele foi medalhista. Qual era o problema dele? Ele tinha descoberto que era homossexual, se apaixonou por um homossexual que era um sujeito canalha. Esse sujeito, na concentração, e os amigos ligavam dizendo que o cara estava transando com outros caras, indo para boates. O atleta estava caindo e a leitura de quem estava fora era diferente da minha. Estava sabendo exatamente o que estava acontecendo, mas nem ele ia falar, nem eu e certamente o técnico também não iria falar. É complicado saber o que aconteceu de verdade porque há um certo pacto de respeito. Já vi gente sendo convocada para a seleção que às vezes a imprensa fala que foi convocado, mas não escalado. Mas o atleta enfrenta problemas de saúde, vomita o tempo todo e não dá para escalar.

Manager – Um turbilhão emocional?

Shinyashiki – Aprendi como psiquiatra a não discutir o que eu não vi.

Manager – Não julgar?

Shinyashiki – Independentemente de julgar o que quer que seja... Aí já seria um santo; estou longe disso. Não julgar é uma das virtudes mais bonitas que um ser humano pode ter, mas a outra coisa é que é complicado você dar uma opinião como psiquiatra. A gente é orientado a não fazer isso. Se você perguntar para outro jornalista, ele tem todo direito de falar o que ele acha, eu não tenho esse direito porque eu aprendo que se você não viu o caso, você não se manifesta.

Manager – Mas há uma exaltação do estilo Felipão, não há?

Shinyashiki - Houve a exaltação do estilo Felipão, só que eu não sei se o estilo Felipão teria dado certo com o estilo desses jogadores, que é um estilo diferente. Liderança é situacional. Nesse sentido, eu acho que falta para o Parreira saber dar gritos. Tem momentos que o cara precisa dar gritos, mas tem momentos que você precisa deixar a liderança ser criada em campo, não adianta só o líder de fora da quadra gritar. Por exemplo, eu vi o técnico da Coréia do Sul dar um tapa na cara dos atletas, faz parte do relacionamento entre técnicos e atletas na Coréia. A menina do nado sincronizado errou, a professora começa a falar, ela se exalta e dá um tapa ali, na frente de todo mundo, na piscina. E eu não vi as meninas da Coréia serem campeãs. Eu particularmente achei que foi over, passou. Então, às vezes, a gente precisa ser duro, mas quanto precisa ser duro? Liderança situacional é interessante, ou seja, é de acordo com a situação, é de acordo com as pessoas. Eu escolho uma estratégia para poder ser o líder.

Manager – Em síntese, o problema ainda é o burro motivado?

Shinyashiki – Eu acho que a gente precisa estudar mais. Acho que é preciso estudar mais para sintetizar. A gente precisa se informar melhor, é preciso estudar melhor e a gente precisa falar mais a verdade.

Manager – As mentiras corroem o processo...

Shinyashiki – Por exemplo, recebi uma carta de uma pessoa falando que estava numa empresa A, B, C, D e foi demitida, numa posição super legal, para cortar custo, agora está querendo um emprego e não consegue emprego porque o currículo está “acima do que eles precisam”. Respondi: “Minha filha, você não está dando chance das pessoas te falarem a verdade. Não é possível que em dois anos não apareceu nenhuma empresa que não precisava de uma pessoa com seu currículo”. Como se estimula a falar a verdade na sua empresa?

Manager – Isso deveria ser pauta do Conarh?

Shinyashiki – Sim. A verdade no ambiente de trabalho.

Manager – Esse pode ser o próximo tema de um livro do senhor?

Shinyashiki – Não. Estou fazendo minha tese de doutorado sobre gestão de crises. Vou escrever um livro sobre gestão de crises.

Manager – Essas são as prioridades?

Shinyashiki – Talvez eu escreva um livro sobre preparação psicológica nos esportes que eu acabei tendo muita experiência, aprendendo muito e eu acho que poderia ajudar muito esses técnicos. Na verdade, o cara mais importante da preparação psicológica é o técnico, porque, às vezes, um olhar do técnico mata. O sujeito está todo feliz e ele atrasa um minuto, cinco minutos, aí o técnico fala: “Você é um perdedor”. Talvez eu escreva um livro para pais e treinadores, preparadores físicos, esse pessoal que lida com atletas, sobre como fazer uma preparação psicológica.