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[Manager Empregos] Sadia eleva proposta pela compra da Perdigão
Sadia eleva proposta pela compra da Perdigão
por Wagner Belmonte e Raquel Prado
Competir com mais força no mercado internacional é o objetivo da Sadia ao anunciar ao mercado a oferta pública voluntária para a aquisição da totalidade das ações da Perdigão. O negócio, a princípio, poderia chegar a R$ 3,734 bilhões. No entanto, a empresa fez uma proposta mais alta depois da recusa inicial dos acionistas que detêm 55,38% do capital da Perdigão. Na segunda-feira, 17 de julho, o valor ofertado foi de R$ 27,88 por ação; agora, cinco dias depois, a Sadia oferece R$ 29,00 por ação, 4% a mais. Na prática, o valor para assumir o controle, com a nova proposta, chega a R$ 3,884 bilhões. Essa é a primeira vez que uma companhia faz uma oferta pública por outra, no mercado brasileiro. O presidente da Perdigão, Nildemar Secches, disse que o valor oferecido pela Sadia era "extremamente baixo". Segundo Secches, a média deveria ficar em aproximadamente R$ 35,00, contra os R$ 27,88 oferecidos.

A aquisição é estratégica para a Sadia e representa, de acordo com o presidente do conselho da empresa, Walter Fontana Filho, “excelente oportunidade” para a aumentar a presença no cenário externo, elevando, com isso, o volume de exportações para mercados com grande potencial de consumo, como os países da Europa e Ásia.

A internacionalização é meta da Sadia. A empresa divulgou a inauguração de fábricas em diversos países, como a Rússia. O grande objetivo é a criação de uma parceria histórica entre duas tradicionais companhias brasileiras que irá resultar na “liderança global num setor estratégico” para o País, com condições exponencialmente mais favoráveis para competir no mercado internacional.

A união de Sadia e Perdigão reduz o risco de desnacionalização de um setor em que o Brasil apresenta importantes vantagens competitivas, sendo, por exemplo, um dos maiores exportadores de proteína animal do mundo. Se o negócio se confirmar, nascerá uma gigante do setor de aves e suínos, com receita líquida de R$ 12 bilhões, 26 fábricas, 81 mil funcionários e 16 mil produtores integrados.

“Não haverá demissões, nem fechamento de fábricas”, promete Fontana Filho. A nova empresa surgirá com a força de mão-de-obra altamente treinada e capacitada, característica que a Sadia reconhece como um dos grandes ativos da operação e forte diferencial para a projeção no mercado global.

Exportações – Metade do faturamento da nova companhia virá das exportações. O objetivo é enfrentar “pesos pesados” como a americana Tyson Foods, que fatura US$ 26 bilhões e ensaia a chegada ao Brasil. Se a operação for concretizada, a “fusão” resultará na terceira maior exportadora mundial de derivados de carne. Esta é a maior proposta no Brasil desde que a Brahma comprou a Antarctica para criar a Ambev, em julho de 1999.Caso se confirme, a união de Sadia e Perdigão, que nasce com receita líquida de R$ 12 bilhões, terá 50% desse total proveniente do mercado externo. “A nova empresa vai assegurar capacidade de crescimento acelerado, com solidez financeira, possibilitando, assim, criar maior valor para toda sua cadeia produtiva, gerar empregos e riqueza para o Brasil”, promete Fontana Filho.

A Sadia acredita que há “alinhamento de cultura e valores entre as empresas”. A união de forças de executivos e funcionários, o uso das melhores práticas gerenciais e a excelência nos padrões de governança corporativa permitiriam o desenvolvimento de uma companhia brasileira de referência mundial no campo econômico e social. A Sadia já está em mais de 100 países. O Brasil é o maior exportador mundial de frango, mas ainda existem 2 bilhões de pessoas no mundo que não são atendidas pelo frango brasileiro. O Japão é um importante comprador de frango, mas ainda não compra suínos. Lideranças do setor prevêem que, para atender à demanda por proteína animal nos próximos anos, o mundo todo precisa gerar o equivalente a três vezes a produção do Brasil. Essa projeção está baseada no aumento da urbanização, aumento da renda e no crescimento do consumo de proteína animal.

A China, país mais populoso do mundo, tem um consumo de 50 quilos de proteína animal per capita. No Brasil, esse consumo é de 80 quilos e na Europa supera 120 quilos. Se a China chegar ao nível do Brasil, esses 30 quilos per capita adicionais seriam equivalentes a toda a produção de proteína animal dos Estados Unidos e a duas vezes a produção brasileira, o que dimensiona o potencial do mercado a ser disputado num cenário global. O Brasil é extremamente competitivo, considerado o custo de produção de suínos e de frango, que é muito baixo se comparado ao dos Estados Unidos, da Europa e dos países asiáticos.

Monopólio? – Para fazer a avaliação de compra da Perdigão pela Sadia, os órgãos brasileiros de defesa da concorrência terão de pesar as desvantagens de uma forte concentração no mercado interno com as vantagens de um grande competidor no mercado internacional.

Especialistas em defesa da concorrência avaliam que o benefício de se ter uma grande empresa para fazer frente à concorrência internacional deve ser o principal argumento a ser apresentado pela Sadia para justificar a compra da Perdigão. Outra questão envolve a análise dos prejuízos da concentração do mercado. Essa análise deve considerar não só o percentual somado de participação das duas empresas, mas também as condições de competição no mercado de alimentos.

Nas considerações de especialistas, o problema não é a concentração em si, mas o efeito que pode gerar no mercado. Se a aquisição gerar eficiência e benefícios suficientes para neutralizar os efeitos negativos que a concorrência por si só traz para o mercado, a operação pode ser aprovada pelos órgãos de defesa sem restrições.

História - Fundada em 1944 por Attilio Fontana, no oeste catarinense, ao longo dos anos a Sadia firmou-se no segmento agroindustrial e na produção de alimentos derivados de carnes suína, bovina, de frango e de peru, além de massas, margarinas e sobremesas como empresa que é sinônimo de busca pela qualidade e de eficiência de gestão. Nos últimos anos, a Sadia especializou-se, cada vez mais, na produção e distribuição de alimentos industrializados congelados, e resfriados diferenciados. Uma das preocupações da companhia é desenvolver, constantemente, novos produtos. Líder em todas as atividades em que opera no Brasil, a Sadia também é uma das maiores empresas de alimentos da América Latina e uma das mais importantes exportadoras do País. No mercado brasileiro produz cerca de 680 itens distribuídos para mais de 300 mil pontos-de-venda. Para o mercado externo, exporta 250 produtos para mais de 100 países. As primeiras exportações ocorreram nos anos 60.

Por quatro vezes consecutivas (2001, 2003, 2004 e 2005), a Sadia foi eleita a marca mais valiosa no setor brasileiro de alimentos, em pesquisa divulgada pela Interbrand – consultoria inglesa conhecida pela tradicional lista das 100 marcas mais valiosas do mundo – que avalia companhias nacionais listadas na CVM e, dentre elas, elege as marcas brasileiras de maior valor no mercado. A empresa mantém um parque fabril com 13 unidades industriais, duas unidades agropecuárias e centros de distribuição espalhados por sete Estados brasileiros. No exterior, tem representações comerciais em 11 países. Entre eles, Uruguai, Inglaterra, Japão, Chile, Alemanha, Rússia, Turquia e Emirados Árabes. Cinco unidades industriais da Sadia estão localizadas no Estado do Paraná, nas cidades de Ponta Grossa, Dois Vizinhos, Paranaguá, Toledo e Francisco Beltrão. Santa Catarina abriga outras duas unidades: em Chapecó e Concórdia. No Rio Grande do Sul, em Três Passos, a companhia mantém uma indústria. A Sadia conta ainda com unidades industriais distribuídas em Minas Gerais, na cidade de Uberlândia; no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias; no Mato Grosso, em Várzea Grande; e no Distrito Federal.

A Sadia emprega 45,4 mil funcionários e, por meio de seu Sistema de Fomento Agropecuário, mantém parceria com cerca de 10 mil granjas integradas de aves e de suínos.

Companhia aberta desde 1971, a Sadia lançou em 2001, ADRs (American Depositary Receipts) na Bolsa de Nova York e aderiu ao Nível 1 de Governança Corporativa da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Em 2004, a empresa passou a fazer parte do Latibex, índice de empresas latino-americanas da Bolsa de Madrid.

A Sadia S.A. encerrou 2005 com lucro líquido recorde de R$ 657,3 milhões, resultado que superou em quase 50% o registrado no ano anterior. A margem líquida, de 9%, também foi recorde. Os resultados refletem os esforços empreendidos pela empresa ao longo do ano para ampliação de sua receita, mas com forte controle de custos, visando a crescente melhoria da rentabilidade. A companhia encerrou 2005 com um faturamento de R$ 8,3 bilhões, sendo que as vendas no mercado externo e interno se mantiveram equilibradas.

Perfil – Walter Fontana Filho é presidente do Conselho de Administração da Sadia e economista com especialização em Administração e Marketing, Fontana está na Sadia desde 1972 e falou com a Manager sobre a proposta de oferta pública voluntária para aquisição do controle acionário da Perdigão.

Manager – Qual é o objetivo da proposta de oferta pública voluntária para aquisição do controle acionário da Perdigão?
Walter Fontana Filho – O objetivo é gerar riqueza e prosperidade, dando seqüência ao sonho do fundador Attilio Fontana, que era crescer e gerar empregos. Nosso sonho é construir uma empresa de porte internacional. Se nossa proposta for aceita, a companhia representará um quarto da Tysson Foods e um décimo da Cargill. Com a Perdigão, podemos criar uma parceria histórica entre duas tradicionais companhias brasileiras, parceria que irá resultar em liderança global em setor estratégico para o País, com amplas condições de competir no mercado internacional.

Manager – O setor de proteína animal tem grande representatividade internacional e é estratégico para a Sadia?
Fontana – Sim, esse setor é estratégico e representa uma guerra mundial pela liderança. A abertura de mercado da Sadia imprimiu mais competitividade à agropecuária.

Manager – Se for aceita, a aquisição do controle acionário da Perdigão não aumentará a concentração no mercado interno?
Fontana – A Sadia sempre teve muito respeito pelo consumidor. Se for aceita, a operação envolverá concentração de alguns itens, mas estamos colocando a situação à disposição de diversos órgãos, dentro de uma postura totalmente transparente. Nos segmentos de suínos e aves haverá concentração, sendo que 80% da produção de aves é destinada ao mercado externo. Nos mercados de maior impacto no abastecimento, não haverá concentração em porcentuais superiores aos estabelecidos pelos órgãos de defesa do consumidor.

Manager – Haverá participação conjunta na venda de carne de aves e suínos resfriados e congelados no mercado interno?
Fontana – Tal participação não ultrapassa 20% da produção nacional. Em alguns segmentos de maior valor agregado poderá ocorrer concentração como presunto, com 64,5%, prato pronto congelado, com 91% e tortas salgadas, com 92,4%.

Manager – Como ficarão os empregos, considerando que a Sadia conta com 45,4 mil funcionários e a Perdigão tem 35,6 mil?
Fontana – Temos grande respeito pelos funcionários das duas empresas, principalmente pela capacidade elevada dessa mão-de-obra. Não há possibilidades de fechamento de fábricas e muito menos de redução de empregos. Na verdade, vamos agregar mais funcionários, envolvendo profissionais treinados pelas duas empresas. Temos mão-de-obra altamente treinada e capacitada e isso ajudará a formar um grande player, com grande força no mercado externo. Além disso, o fator humano é um ativo muito precioso. Vamos totalizar 80 mil funcionários e mais de 16 mil famílias operando nas empresas, além de vários fornecedores. Nos próximos três anos, a Sadia tem planos de contratação de 8 mil funcionários, que continuarão se os acionistas da Perdigão aceitarem a oferta da Sadia e se a operação for aprovada pelos órgãos de defesa do consumidor e pelo mercado de capitais.

Manager – As margens de lucro operadas por Perdigão e Sadia são compatíveis?
Fontana – Sim, nossas margens são pouco superiores à média das empresas. Há um compartilhamento de riquezas, já que temos capacidade financeira para prover o crescimento de ambas. Temos o compromisso com o crescimento do Brasil, para representar o País no mercado internacional e garantir empregos na cadeia produtiva.

Manager – Se a proposta for aprovada, qual seria o faturamento de Sadia e Perdigão nessa nova empresa?
Fontana – Somaríamos o faturamento de ambas. A receita bruta operacional combinada da Sadia em 2005 foi de R$ 8,328 bilhões e a da Perdigão foi de R$ 5,873 bilhões. Isso equivale a uma receita de R$ 14,201 bilhões, sendo que 51% da empresa seria destinada a exportação.

Manager – Quais são os grandes mercados de exportação por região atualmente?
Fontana – Oriente Médio lidera as exportações, concentrando 26%, seguido por Europa, com 24% e “Eurásia”, com 21% para a Sadia. Porém, se a proposta de oferta for aprovada, conseguiremos um faturamento de R$ 6,9 bilhões, sendo 26% para a Europa, 23% para o Oriente Médio e 21% para “Eurásia”. Teremos melhores condições para enfrentar os desafios e barreiras do mercado global.

Manager – Como ficam as marcas Sadia e Perdigão com essa operação?
Fontana – Não existe intenção de abrir mão das marcas Sadia, Perdigão, Batavo e Rezende.

Manager – A Sadia está focada no mercado externo?
Fontana – Estamos comprometidos com a internacionalização. Montamos uma fábrica na Rússia recentemente, o que mostra nosso interesse no mercado global.

Manager – Analistas do setor comentam que essa oferta vem em momento delicado, considerado o episódio da gripe aviária. Isso poderá derrubar os preços das companhias?
Fontana – O momento é de oportunidade para nós. Em abril, a Perdigão promoveu uma reforma estatutária, abrindo essa possibilidade de venda. Se a empresa está passando por uma fase ruim, o momento é de abrir os olhos para o longo prazo. Nós estamos focados no longo prazo.

Manager – Quanto a Sadia está disposta a pagar pela Perdigão?
Fontana – Estamos dispostos a pagar R$ 29,00 por ação, o que representa um prêmio superior a 35% sobre a média dos preços dos papéis da Perdigão nos últimos 30 dias. A maior parte dos recursos (R$ 2,7 bilhões) virá de um empréstimo do Banco ABN Amro. A Sadia tem mais R$ 1 bilhão em caixa para usar na proposta.



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