Recentemente, por mera curiosidade, participei de uma conferência com uma especialista em avicultura. Embora tenha nascido no interior e seja razoavelmente conhecedor das aves, surpreendi-me ao aprender aspectos curiosos do comportamento dos galináceos, formas de agir que têm algo a lembrar-nos sobre o lado natural e instintivo dos arranjos sociais. Um dos pontos a destacar é a observância da hierarquia: as aves organizam-se por status e este é observado nas várias situações de convivência. No poleiro ou em um galho de árvore, por exemplo, o galo posiciona-se no degrau ou galho mais alto, à direita, e é ladeado pelas galinhas que formam uma escala de importância da direita para a esquerda, logicamente as mais importantes, de maior status, ficando mais próximas do galo. Logo abaixo, vêm as galinhas do segundo escalão e, na seqüência, vem o que poderíamos denominar - para usar uma expressão da moda política - o “baixo clero”, entre as galinhas. Note que nenhum outro galo, para respeitar as regras da hierarquia, pode subir no mesmo poleiro ou galho.

Essa hierarquia que os animais estabelecem sem discussões teóricas sobre modelos organizacionais, gestão matricial e outras sofisticações humanas, tem vantagens práticas significativas, relacionadas ao bem-estar e, principalmente, à sobrevivência do indivíduo e do grupo. Por exemplo, torna algumas decisões mais fáceis, facilita a mobilização do grupo, orienta o indivíduo em seu comportamento individual, reduz os conflitos.

O que temos a ver com tudo isso? Muito. Aristóteles já definira o homem como animal racional e político – temos o lado instintivo animal e, para além dele mas nunca livre completamente desse, vem o lado racional e, como nos juntamos em grupos, o político. Vale dizer: para que o racional e o político funcionem a contento não devemos nos esquecer da origem animal e das suas demandas e dinâmicas fundamentais.

Mundo das organizações

Ora, como já lembrara o destacado professor de sociologia Amitai Etzioni, nascemos, vivemos e morremos dentro de organizações e manter um comportamento sintonizado com a natureza e as demandas do processo social que ocorre dentro delas é condição necessária para a eficácia e sucesso pessoal e para a maior produtividade dos grupos a que nos vinculamos. Por exemplo, temos de levar em conta com seriedade a hierarquia. Ela é um arranjo natural e instintivo, que nosso lado animal demanda. O lado racional nos levou a abandonar a hierarquia das bicadas da força física, mas o poder existe e é necessário ao melhor funcionamento do grupo, logo, o nosso lado político tem de trazer a sabedoria para o ajuste mais harmônico e produtivo.

Pode até ocorrer que um dia, a capacidade racional e política nos livre da hierarquia, concretizando os sonhos dos anarquistas, mas, enquanto esse dia não vem, é sábio lidar bem com a hierarquia.

Lidando com a hierarquia

A hierarquia é baseada em determinadas regras que são importantes para o grupo num dado momento. Por exemplo, no caso de uma repentina doença, o médico, com a autoridade proveniente do conhecimento, assume o comando. No contexto das organizações, a hierarquia baseada na ocupação legítima de cargos é a regra, mas há outras fontes de poder e hierarquização, como o conhecimento técnico, a experiência. É sábio levar em conta tudo isso, buscando a harmonização e o equilíbrio entre o melhor para o indivíduo e o grupo.

Do ponto de vista de carreira, muita gente derrapa por negligenciar as questões relacionadas com a hierarquia. A experiência de muitos anos em consultoria de RH mostra que usualmente saem-se melhor, ao longo do tempo, na carreira os indivíduos que observam certos comportamentos a esse respeito. São eles:

Sensibilidade para percepção da hierarquia – Como o processo social é complexo, há aspectos formais e aspectos informais relevantes. Atenção e sensibilidade tornam o indivíduo mais perceptivo dos pontos que efetivamente contam no grupo, permitindo que ele aja com maior acerto.

Respeito à hierarquia – Há uma hierarquia valorizada pelo grupo, é fundamental respeitar o grupo e acatá-la. Isso não impede a ação política de tentar influenciar, para o bem do grupo e dos indivíduos, a composição do poder interno. Mas isso tem de ser feito com cuidado e boa-fé.

Respeito aos ocupantes de cargos – Há indivíduos que não admiram seus chefes ou colegas ocupantes de determinados cargos e entram em linha de confrontação ou de negação passiva da autoridade dos outros. Nunca é bom para a carreira. Aceitar quem está no cargo é sinal de maturidade emocional. Pode-se até tentar influenciar essa pessoa, o chefe, por exemplo, mas nunca rejeitar a autoridade estabelecida.

Respeito ao próprio cargo – O cargo requer a observância de papéis específicos, um comportamento adequado, o que hoje freqüentemente se chama de “liturgia” da posição. O ocupante tem de respeitar isso. Não pode fazer o que quer, mas o que tem de ser feito, como lembra o velho Drucker.

Apoio para que o todo funcione do melhor modo – Não basta respeitar passivamente o estabelecido. O indivíduo que efetivamente quer ser útil tem de dar apoio ativo para que a organização atinja o melhor de sua performance.

Conclusão

O ser humano obtém o melhor de si quando se harmoniza com sua natureza. Como ser biológico, tem comportamentos instintivos de real valor e é sábio ficar atento aos ditames dessa esfera. Como ser racional, procura compreender para evoluir, sim, mas com respeito às necessidades biológicas. Como ser político, tem de buscar a integração e o entendimento.

Dentro desse quadro, há comportamentos eficazes e comportamentos que não levam a nada. Em síntese, em vez de rebeldias infantis, é muito mais produtiva uma conduta madura e responsável; em vez de confrontação, busca da harmonização de interesses; em vez de desintegração, busca da sinergia de esforços. Preservar e respeitar a boa hierarquia, aquela que ajuda o grupo a sobreviver e evoluir, será sempre uma boa receita.